XLVII
Na sala da música… Pedro realizou várias experiências…
Na oficina construíram-se alguns instrumentos musicais… Que foram utilizados em algumas actividades… Por vezes… Pedro tocava uma canção conhecida… Para que os alunos o acompanhassem… Aos poucos… Introduziu as suas… “Uma vida por um dia” e “Ar do mar”…
Os que já sabiam ler… Dispunham de um papel com a letra… E curiosamente… Alguns que não sabiam… Ou simplesmente… Não sabiam tão bem… Também gostavam de o ter… Talvez fosse uma questão de estilo ou estatuto...
Um dia… Apanhou Cristina com a sua folha de cabeça para baixo… Enfim… Ela apanhava parte da letra no ar… Mas mantinha a pose…
A maioria ia pelo ouvido… Pelo som da guitarra... Ou... Pela voz dos colegas e professor…
Teófilo estava num canto da sala… Olhando pasmo apara a folha de papel… Os restantes deliravam por entre a sequência de sons… Mais ou menos encadeados… Uns faziam playback… Outros… Elevavam a voz no refrão… Ou em alguma outra parte já adquirida por estes…
Teófilo contemplava a folha com estranheza… porém... Parecia tentar ler…
No final… Pedro pediu-lhe que ficasse… Para conversar:
- Professor! Professor! Eu tenho de lanchar! Eu tenho de lanchar! – Repetiu preocupado… A papaguear…
O docente explicou-lhe que seria por muito pouco tempo… E pediu-lhe que se sentasse à sua frente e lesse a folha em voz alta…
Teófilo lia razoavelmente bem e a sua voz era grave… Bastante marcada e agradável…
Posteriormente… Segurou a guitarra e solicitou que o acompanhasse…
- Eu não sei cantar! Eu não sei cantar! – Repetia… Erguendo o braço… Para dar mais ênfase ao seu argumento.... - Eu não sei cantar! Eu não sei cantar!
- Teófilo!... – Exclamou o professor… Elevando a voz… - Atenção! - E seguiu... Iniciando a canção... Devagar: - Pergunto… Se a minha vida vai mudar… - Ordenando-lhe com os olhos para que entrasse na canção e no tom…
- Estou certo! – Cantou Teófilo… De uma forma dura e demasiado quadrada…
O professor parou a música e recomendou-lhe que se soltasse e desse algum balanço à voz…
- Faz como eu… - Recomendou… Recomeçando de novo em Mi maior… - Pergunto…
Teófilo entrava na canção… Com maior melodia… Olhando o docente… Como que… Aguardando o seu feedback… Pedro realizou um sinal afirmativo com a cabeça…
- Pergunto… Se a minha vida vai mudar… - Cantaram em coro…
- Es… Estou certo!... - Atalhou o aluno… Precipitadamente…
Pedro ia corrigindo o seu desempenho… Aos poucos e com paciência… As coisas iam correndo relativamente bem…
Na porta da sala… Zé observava-os… Sem se manifestar… Apreciando de um modo especial… O que ali se passava…
Não fazia qualquer ruído como era habitual… Apenas observando com admiração…
No início… O professor ignorou-o… Prosseguindo… Mas… Com o tempo… Fez-lhe sinal para que entrasse… Silenciosamente… Foi-se aproximando dos dois… Rodopiando e expressando-se com o corpo… Num esbracejar… Com o microfone na mão… Sempre com zelo e cuidado... Apreciando o momento de um jeito profundo… Cuidadoso e especial…
- Já posso ir lanchar? – Perguntou… Erguendo a mão… - Eu tenho de lanchar! Eu preciso! Eu preciso!
- Já vais Teófilo!... Vamos terminar a canção.!...
Zé deambulava pelo espaço… Abismado e muito compenetrado em toda aquela sonoridade… Como se fosse uma obra prima… Ou... Uma peça de arte feita à mão... Como algo que aspira à perfeição... Beleza e elegância...
- Muito bom Teófilo! – Acervou o professor… - Agora já sabes cantar! Estás de parabéns!...
- Já sei? – Questionou curioso… - Acha? Acha? Acha?
- Sabes e sempre soubeste! Só não tinhas experimentado!
- Acha? Acha?
- Toda a gente sabe cantar! – Exclamou o professor… Uns mais do que os outros… Há que prestar atenção à letra… Ensaiar… Sobretudo ensaiar! – Assegurou o docente…
- Ensaiar! Ensaiar! – Reiterou… Apanhando apenas a última palavra da frase… Aliás… Como era habitual…
Subitamente ergueu-se e interrogou:
- Já posso ir lanchar? É que eu preciso! Preciso! – Disse… Erguendo de novo a mão…
O professor sorriu e deixou-o ir…
O aluno saiu e Zé ficou por ali… Pedro não disse nada e continuou a tocar a guitarra sem lhe dar muita importância…
O professor fechava os olhos e entregava-se à música e à magia dos sons…
Zé aproximou-se e começou a olhá-lo de perto… Como se fosse uma peça de museu… Sem lhe tocar… Contudo… Muito próximo… Procurando o contacto dos olhos do professor… Que por sua vez... Tentava fugir deste… Aliás.. Como o aluno habitualmente fazia…
Subitamente… Pedro parou num acorde… Em que arranhou as cordas mais forte… Num varrer seco… Os olhos dos dois encontraram-se por momentos… Zé focou-o intensamente e beijou-o na testa… Ou melhor… Tocou-lhe com os lábios… Dispersando posteriormente para fora da sala… Como sempre...
António Pedro Santos
(Continua)...
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