A braços com a Loucura. Ou melhor... Ensaiando

LII


A sala da música… Era um local privilegiado… Um espaço de liberdade e de criação… Com o tempo e respeitando os grupos… Começaram a realizar-se algumas composições… Básicas e muito simples… E claro... Consoante o público alvo…


Por vezes misturavam-se alguns alunos mais velhos e capazes… Para dar maior brilho às prestações… Assim como… Motivação para os restantes…


Seguindo uma ideia antiga dos alunos… Começaram a fazer-se algumas gravações…


Com um velho gravador… Pedro registou numa cassete todos os trabalhos…


O lado A começava com “ar do mar”… Teófilo na voz… Virgílio e Mário nas congas… Isto é… Latas…


Carlos nos coros… Luís nas maracas… Roberto nos ferrinhos…


O som carregado do blues… Fez com que repetissem o último verso… À medida que a canção avançava… As coisas pareciam correr bem melhor… Mas o professor ficou com a primeira gravação…


Seguidamente… A sala de estimulação global II… Participou com uma música instrumental…


Pedro pediu ajuda a Carlos e Patrícia… Para coordenarem os alunos... Enquanto este tocava guitarra… Um ritmo constante e duro… Do princípio ao fim…


Os mais velhos distribuíram os instrumentos e os alunos foram atrás… Congas e tamborins… Ferrinhos e caixas… Paus de chuva e adufes… Castanholas e guizos… Enfim… Sónia sacudia umas maracas e batia num tamborim… Com pouca sequência e atenção… Andreia tocava ferrinhos com o apoio de Patrícia… Tatiana congas e os clones pauzinhos ou clavas… Estes três últimos tiveram uma prestação relativamente cadenciada…


Por outro lado... Hélio sacudia um guizo e Zé circulava com um pau de chuva que apenas manobrava… Quando queria… Porém… Sempre num tempo adequado…


O resultado final não foi mau de todo… Isto porque… O professor marcava um ritmo certo… Que Carlos e Patrícia facilmente entenderam… E que… Os restantes apenas tiveram de preencher…


Os alunos chamaram-lhe a “oficina”… Pois os sons… Pareciam martelos e ferramentas a bater…


- Posso tocar pífaro? – Perguntou timidamente Samuel… Segurando uma flauta de bisel que trouxera de casa…


- Sabes tocar? – Indagou o professor…


O aluno respondeu afirmativamente com a cabeça e começou a soprar a flauta… Ele não sabia… Mas tentava... Tinha vontade e muito estilo…


Nesse momento… Alguém toca o braço de Pedro… Era Fábio… Sorridente… Sempre demasiado branco… Com um semblante gravativo… Disse qualquer coisa imperceptível… Mas… Ergueu a mão e mostrou-lhe uma harmónica… Pedro sorriu e convidou-o a tocar… Fábio tocou com tanta energia que até batia o pé…


O docente mandou chamar Carlos e Teófilo… Patrícia e Cláudia…


- Chamem também o Ramos! – Pediu…


Na sala… Deu um instrumento de percussão a cada um… Menos a Teófilo… Que segundo ele… Só conseguia fazer uma coisa de cada vez… Depois explicou a sua ideia…


Pedro tocaria um arranjo tradicional na guitarra… Os restantes faziam a percussão… Samuel e Fábio tocariam livremente…


O docente recomendou-lhes que entrassem na música e seguissem… Sem limites… Teófilo lia umas frases que Pedro escreveu à pressão… Pausadamente… Repetindo-as sempre que o professor fizesse sinal… Palavras acerca do mundo e da vida… De um modo espaçado…


Os restantes alunos tinham funções bem definidas… À excepção dos alunos que tocavam os instrumentos de Sopro… Para além de tocar… Tinham coisas para ir dizendo… Esporadicamente e amiudadamente… Dizeres tipo: “Ai a minha vida”… Ou… “Querida mãezinha”… “Ai… Ai…”… Enfim… A ideia era preencher o ritmo dado pelas cordas com um pouco de palavras… Desencontradas e aparentemente vãs… Todavia… Encadeadas e estruturadas com sentido…


Pedro chamou-lhe… “Palavras ao vento”…


O lado A terminou com um poema colectivo… Que o professor realizou com os alunos na escolaridade… Onde cada uma sugeria uma frase que teria obrigatoriamente de dar continuidade à anterior… Não ficou mau...


Lido por Ilda... Acompanhada de um suporte musical desartificioso… Ficou interessante…


O lado B começou com a canção… “Uma vida por um dia”…


Carlos… Cristina e Carrapito… Filipe e Bebé… Teófilo… Angela e Ilda… Alinhados… Cantaram por cima da guitarra de Pedro…


Primeiro ensaiaram… Duas vezes… O professor explicou-lhe o posicionamento da boca… Não queria gritos nem ninguém fora de tom… O resultado ficou muito além do esperado… 


Posteriormente… O docente decidiu realizar uma coisa diferente… Apelar à participação da sala de estimulação global I… Levou-os para a sala da música… Com a ajuda de Carlos… João e Patrícia…


Miguel circulava no chão… Com dois guizos presos nos pulsos… João vigiava-o… Para que este não se magoasse… Salvador brincava com um reco-reco… Arrancando-lhe sons e emitindo vocalizações…


Patrícia e Carlos… Ocupavam-se Rafael e Bento… Cada um com uma pandeireta… Que era sacudida com auxílio…


No chão… Ruben batia palmas com violência… Ao mesmo tempo que explorava uma enorme conga e um tamborim…


O professor começou a dedilhar a guitarra… Uma melodia simples e suave…


Teófilo entra em cena para ler umas palavras coloridas … Um conjunto de frases organizadas pelos alunos na sala de escolaridade… Palavras que se misturam com os sons que ecoam pela sala… Dos instrumentos… Das vocalizações… Por entre gritos e risos de contentamento de Salvador… Exteriorizam-se estampidos de Ruben...  Alternando batidas com palmas e clamores… Nos sorrisos afáveis e puros de Bento e Rafael… Claro... Para além da indiferença de Miguel… Que apenas se deslocava produzindo pouco som…


- Posso cantar um fado? – Questionou Roberto… - Posso?


O professor sorriu… Mas ainda assim… Pediu-lhe que cantasse…


Rapidamente percebeu que era inventado à pressão… Porém… E face àquele desarranjo… Compreendeu que fluía com alguma estrutura e alma… Apanhou uns acordes simples e começaram gravar… Com uma base quadrada na guitarra e o embalo congénito do fado…


Era verdade que Roberto não sabia cantar… Mas percebia-se que já tinha escutado o fado… Uma vez que apresentava postura e pose de fadista… Bem como… Algum balanço…


Na última canção… Pedro escreveu uma espécie de hino da escola… Onde se cantavam palavras de amizade… Trabalho e dedicação… Tolerância e saudade… Afinal… As frases eram elementares e a canção tinha uma toada elementar…


Sem guitarra… Pedro organizou um grande coro… Com Rosa… Angela e Ilda… Cláudia… Ronaldo e Samuel… Ramos… Bebé e Roberto… Luís… Virgílio e Teófilo… Bruninho e Patrícia… Mário… Raquel e Sarita… Maura… Filipe… Carrapito… Carlos e Cristina… João e Ana… Ainda que silenciosa… Esteve presente e agrupada no coro… Sorrindo… Como que assistindo… Ainda que… Sem mostrar os dentes…


A canção tinha poucos versos e um refrão… Primeiro começavam as raparigas… A seguir os rapazes… No final… Juntavam as vozes de ambos os sexos… Todavia… Aconteceram algumas confusões antes da gravação… Ramos e Filipe… Pareciam esquecer-se e confundir a sua vez… Raquel também apresentou dificuldades… Enfim… O grupo era grande demais para a sala e o professor teve alguns problemas…


No término da coisa… O efeito foi o desejado… Uma harmonia de vozes perfiladas para o mesmo objectivo… Uma canção… Um poema musicado  com três acordes acerca da sua escola…


O professor nunca os viu cantar nenhuma outra canção com tanto expressividade e força… Por várias razões… Eram os seus amigos… A sua escola e as suas vontades… Serem iguais aos restantes… Unidos e fortes… Para além das suas competências… Da sua escassez e de todos os seus constrangimentos…


Mais tarde… No centro de recursos… Com a ajuda de Luz… Dora e Irene… Concebeu-se uma capa e fizeram-se cópias da cassete… Depois... Colocaram-se à venda por um preço muito barato e simbólico… A maioria dos alunos compraram de recordação…


Pedro teve a ideia de mandar um exemplar para a direcção regional… Que não chegou sequer a dar resposta… Outro para a junta de freguesia… Câmara municipal e biblioteca… Quem sabe... Se não entenderiam as reais capacidades daqueles alunos desvirtuados e eternamente estigmatizados...


António Pedro Santos


(Continua)... 

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