A braços com a Loucura. Ou melhor ... Ensaiando

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Era sexta-feira... Faltava apenas um fim-de-semana para o início do novo ano lectivo...


No final do dia... Na sua nova casa... Nas tais águas furtadas de um edifício antiquado...


Pedro já tinha o horário de trabalho consigo…


No terraço... Sentado numa cadeira de plástico... Daquelas de esplanada de café... Apreciava a mudança de cores que o fim do dia lhe proporcionava... Pôr do Sol deslumbrante... Num acaso em que o ocaso acontecia... Como um espectáculo cénico... De efeitos especiais assombrosos e sem qualquer manipulação...


De pernas apoiadas no muro... Fumava um cigarro lentamente... Puxando a nicotina para dentro de si... Com intensidade e sem pressas… No mesmo momento em que o Sol se escondia aos poucos no horizonte azulado…


Acontecimento de cariz único... Episódio que nos escapa... E que no entanto... Ocorre todos os dias em toda a parte... Dádiva do movimento dos corpos... Gradativo e vagaroso... Sem que se note... Mesmo que se pare para reparar... Num exercício rotativo... Irradiante... Avermelhado e alaranjado…


Um incêndio que une os mais frágeis seres... Mesmo sem o saber... Tornando-os alheados e atentos aos pormenores... Pensativos na beleza... Reflectivos como Pedro... Num novo amanhã…


Lembrou-se do horário... Manhãs com escolaridade... Tardes com educação física e psicomotricidade... Diferentes grupos de alunos... Rotativos ao longo dos dias da semana... Todos passariam por lá... Distantes capacidades e necessidades...


Não ia ser tarefa fácil...


“Depois se veria!”... Pensou... Enquanto travava o fumo com avidez...


Atmosfera que esbraseias... E conservas com ganância uma enormidade de partículas... Aquecimento da humidade da Terra... Aceleramento das correntes de ar... Desorientadas e perdidas... Correndo campos e montes... Vielas e casas... Cidades grandes e pequenos aglomerados de casebres... Levantando poeira... Criando algazarra...


Sem espaço para ter medo do amanhã... Sem apreensão pelo que possa acontecer... Porque aquele espectáculo era de facto soberbo e único... Tornando cada ser e os seus problemas em pequenas misérias insignificantes...


António Pedro Santos


(Continua)... 

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