Hiperactividade 2

 Etiologia


 


 


As causas que estão relacionadas com o aparecimento do DHDA são ainda hoje desconhecidas. Existem diversas investigações sobre este tema, mas os resultados são ainda considerados inconclusivos. Não é possível ainda determinar as causas do DHDA, sendo apenas possível falar de factores de risco. Estes factores podem ser:


 


Ambientais


Consideram-se factores ambientais o consumo de substâncias durante a gravidez (álcool e tabaco) e a exposição ao chumbo (especialmente se a exposição ocorreu entre os 12 e os 36 meses de idade). Estes factores, só por si, não explicam a origem do DHDA (Barkley, 2000 cit. por Lopes, 2004).


 


Desenvolvimento Cerebral


Considera-se que a origem do DHDA está relacionada com alterações no curso do desenvolvimento do cérebro da criança e que estas crianças apresentam uma deficiência no mecanismo da dopamina (a dopamina é um neurotransmissor que está relacionado com a inibição comportamental e auto-controlo) nas áreas pré-frontais do córtex. Foi demonstrada a eficácia da medicação estimulante na normalização desta deficiência (Lopes, 2004).


 


Hereditariedade


 


O papel da hereditariedade está confirmado por diversos estudos. Ao longo da década de 90 os estudos sugeriam que a hereditariedade poderá explicar entre 50 a 97% das características do DHDA. Considera-se que não existe um gene responsável (Lopes, 2004).


 


Apesar de ser evidente a importância dos factores fisiológicos na origem da DHDA, não podemos esquecer que a criança com DHDA gera no seu ambiente uma série de reacções e conflitos que podem ter um carácter patológico. Nos casos em que existe psicopatologia familiar o distúrbio torna-se ainda mais grave (Toro, 1998).


 


 


Como se Realiza o Diagnóstico?


 


 


Por vezes, os professores sentem-se confusos, pois não sabem como confirmar suspeitas de DHDA. Existem sinais que podem ajudar a identificar uma criança hiperactiva.


 


 


Sinais de Alerta


 


³                 O aluno parece estar aquém das suas capacidades intelectuais.


³                 Apresenta um nível inapropriado de atenção, em comparação com outras crianças da mesma idade.


³                 Tem dificuldade em seguir instruções.


³                 Aparenta não ouvir o que lhe é dito.


³                 Demora muito tempo a fazer os testes, pois tem dificuldade em abstrair-se dos barulhos e de outros estímulos.


³                 Tem tendência para perder objectos importantes (vestuário, material escolar, etc.).


³                 É impulsivo.


³                 Tem dificuldade em pôr em prática tarefas que requerem planeamento.


³                 Corre em locais inapropriados, sobe aos móveis.


³                 Responde fora do contexto, interrompe os outros quando deveria estar calado e fala demasiado, mas sem conseguir manter o fio do discurso.


³                 Tem dificuldade em esperar pela sua vez.


³                 Não consegue ficar sossegado, custa-lhe ficar sentado.


³                 Coloca a culpa nos outros.


³                 Apresenta dificuldades na relação com familiares, amigos e/ou professores.


 


Se a criança apresentar a maior parte dos sinais referidos, o primeiro passo que o professor deve dar é informar a família. Depois é importante que a criança seja encaminhada para um técnico de saúde mental, para ser avaliada e para que o tratamento seja iniciado o mais rapidamente possível.


 


O diagnóstico do DHDA deve compreender as seguintes etapas:


 


Entrevista com a criança, realizada por um psicólogo, médico ou técnico com formação nesta área


 


A entrevista com a criança é essencial para a realização do diagnóstico. É importante que o psicólogo tenha em conta que o comportamento da criança quando está dentro do gabinete pode ser muito diferente do comportamento noutros contextos. Estar com um psicólogo ou um médico num gabinete é uma situação nova e, neste tipo de situações, as crianças com DHDA têm tendência a ser colaborantes e a ter um comportamento adequado (Lopes, 2004).


 


Nesta entrevista a criança é convidada a falar sobre a razão porque está ali. Se a criança não souber responder, é-lhe dada uma breve explicação sobre o problema. São colocadas questões sobre seu dia-a-dia, os seus interesses, relação com amigos e adultos, forma como organiza o material escolar e tarefas, forma como lida com horários, etc (Lopes, 2004).


 


Entrevista com os pais


 


Segundo Lopes (2004), a entrevista com os pais tem os seguintes objectivos:


 


1-                         Estabelecer uma relação com os pais, que será importante depois para a adesão ao tratamento;


2-                         Obter informações sobre o comportamento da criança;


3-                         Avaliar a forma como a família encara o problema;


4-                         Obter informação sobre a relação pais-criança (se a criança estiver presente);


5-                         Permite focalizar o problema em aspectos do presente (evitar dar demasiada importância aos erros do passado);


6-                         Permite iniciar logo a intervenção, dando indicações aos pais;


7-                         Permite ser um espaço onde os pais podem falar dos seus medos e frustrações, onde o psicólogo desdramatiza a situação e procura evitar que se sintam culpados;


8-                         Permite o estabelecimento da aliança terapêutica com os pais.


 


São investigados aspectos como o momento em que se iniciaram os sintomas, a reacção dos pais ao comportamento da criança, problemas médicos e psicológicos da criança, história do desenvolvimento, familiares com problemas idênticos, relação da criança com irmãos e pares, relação com a escola, professores e tarefas escolares, linguagem, hábitos de organização (Lopes, 2004; Phellan, 1991; Wright, 1995).


 


Exame médico


 


Elaboração do Diário do Comportamento do Aluno


 


O professor pode medir o comportamento desadequado do aluno, com a ajuda de um diário comportamental.


 


O objectivo é medir a variabilidade do comportamento da criança ao longo dos dias. Este instrumento pode ser útil na realização do diagnóstico e na monitorização do impacto da intervenção do professor na mudança de comportamento do aluno. Pode também ser utilizado para avaliar se a medicação está a ser eficaz na mudança do comportamento na sala de aula (Wright, 1995). Um exemplo desta escala pode ser observado em anexo.


 


Preenchimento de questionários pelos professores e pais


 


Entrevista com o professor


 


O professor é a pessoa que tem mais conhecimento sobre o funcionamento do aluno na sala de aula, por isso poderá responder a algumas questões consideradas importantes para o estabelecimento do diagnóstico (Lopes, 2004; Wright, 1995):


 


- Irrequietude e imaturidade


- Funcionamento do aluno na sala de aula


- Capacidades académicas do aluno


- Organização dos materiais


- Cumprimento dos TPC


- Hábitos de trabalho


- Qualidade de relações com os pares


- Problemas de comportamento (Quais são os comportamentos desadequados? Que situações costumam despoletar esses comportamentos? Que estratégias costumam contribuir para a diminuição desses comportamentos?)


- Comportamentos agressivos


- Impulsividade


- Motivação para a aprendizagem


- Aspectos positivos do comportamento do aluno


- Cooperação do aluno com os professores e com os colegas


- Estratégias utilizadas pelos professores para lidar com o problema.


 


Observação Directa da Criança


 


Após terem sido realizadas as entrevistas aos pais e aos professores, o psicólogo selecciona comportamentos para observar na sala de aula (por exemplo, “actividade motora excessiva”, “falar excessivamente”, “não cumprir tarefas solicitadas pelo professor”. A observação deve ser realizada pelo menos duas vezes, em dois dias diferentes, e durante pelo menos 20 minutos. Este tipo de avaliação de comportamentos vai permitir distinguir com mais facilidade o DHDA de características normais do desenvolvimento da criança (Wright, 1995).


 


Tratamento


 


As formas de tratamento mais utilizadas são a medicação e a psicoterapia da criança. A intervenção é também alargada a pais e professores.


 


O fármaco mais utilizado é o metilfenidato (Ritalina), que é um estimulante que inibe a impulsividade e reduz a hiperactividade, melhorando os níveis de atenção. Faz-se acompanhar por efeitos secundários, por isso a sua administração deve estar sempre sob constante vigilância. Os principais efeitos secundários são a insónia e a falta de apetite.


 


As técnicas cognitivo-comportamentais são consideradas as mais eficazes no tratamento do DHDA, contribuindo para uma maior interiorização das normas, maior planificação das tarefas e maior auto-controlo. Estas técnicas obtém os seus melhores resultados quando combinadas com o tratamento farmacológico, (Toro, 1998).


 


É importante que o psicólogo trabalhe também com os pais. O psicólogo entende que é difícil ser pai e mãe de uma criança com DHDA e mostra aos pais que é normal que tenham este sentimento. O psicólogo procura esclarecê-los acerca dos problemas do filho e trabalha a desculpabilização, tanto dos pais como do filho. Ter um filho com DHDA pode originar problemas na relação conjugal, por falta de tempo para o casal ou mesmo porque por vezes os pais culpam-se um ao outro, procurando um responsável para o comportamento desadequado do filho. O psicólogo deve ajudá-los a entender que estas recriminações e conflitos em nada ajudam na resolução do problema, podendo mesmo agravar o comportamento da criança.


 


O papel da escola é de extrema importância e o comportamento do professor perante a criança com DHDA influencia certamente o sucesso do tratamento. Após terem sido colocados em prática todos os procedimentos de avaliação e após ter sido confirmado o diagnóstico de DHDA os professores colocam frequentemente a seguinte questão: quando uma criança é diagnosticada com DHDA quais serão as modificações que terei de fazer no meu modo de ensinar para que os seus resultados escolares e comportamento melhorem?


 


Para professores que têm turmas com elevado número de alunos não é tarefa fácil lidar com alunos hiperactivos e desatentos. Por isso, é natural que se sintam desmotivados e sem saber o que fazer.


 


Em seguida, serão apresentadas várias estratégias a pôr em prática na sala de aula que podem contribuir positivamente para o tratamento destas perturbações. As sugestões apresentadas apoiam-se numa revisão de literatura recente sobre intervenção em contexto escolar e destinam-se a professores que tenham alunos diagnosticados com DHDA ou que manifestem apenas alguns sintomas. Algumas estratégias são destinadas a crianças mais novas e outras a adolescentes. Os princípios educativos, a estrutura interventiva e os esquemas de encorajamento são válidos para todos. 


 


É importante ter em conta que a adopção de todas estas estratégias requer a existência de condições para as concretizar, dispêndio de tempo e adaptação de modos de ensinar. Também é importante referir que os efeitos produzidos nem sempre são imediatos e que a intervenção no aluno com DHDA exige muita persistência e paciência. O plano de acção estabelecido pelos professores terá que ser consistente e prolongado. Exige também que os restantes membros da equipa (técnicos de saúde, pais e criança) participem activamente e estejam disponíveis para comunicar entre si.


 


 


Comentários

  1. A hiperatividade é um sintoma que nalguns casos passou a moda, na minha opinião.
    Muitas crianças são irrequietas por natureza e apanham com a etiqueta de hiperatividade. É preciso cuidado com os diagnósticos e preferencialmente obter mais do que um. Outra coisa importante é ter em atenção é prescrição quase compulsiva de medicamentos altamente viciantes como a Ritalina.

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