Sindrome X - Frágil - Estudo de Caso (número 9)

III – INTERVENÇÃO PEDAGÓGICA


1 – O professor – que papel?


Trabalhar com crianças deficientes, exige um trabalho mais específico nas áreas sociais, psicossociais, sensoriais, de autonomia e independência pessoal contudo a vertente cognitiva não pode ser descurada.


A intervenção educativa dentro da sala de aula parte, inicialmente, da consciencialização, por parte do professor, de que a criança tem limitações e da descoberta das causas das mesmas. Aspectos como o relacional contribuem para, através de uma atitude empática, levar a criança a sentir-se reconfortada, amparada, segura e suplantar as dificuldades que manifesta. Em casos mais graves, a intervenção educativa passa pelo incentivo do uso da linguagem e pela consciencialização no outro, de que a comunicação é um acto que coexiste em contexto de interacção social. A fala surge, assim, espontaneamente como um meio de troca de experiências.


O professor deverá planificar uma intervenção centrada nos domínios da aprendizagem, ou seja, no ensino directo das áreas em que a criança apresenta dificuldades, quer se trate da leitura, da matemática ou de qualquer outra área, sem nunca perder de vista as suas capacidades e interesses.


Neste contexto é importante considerar os objectivos que assistem ao desenvolvimento da linguagem: encorajar o uso da fala para se expressar; cria condições de aprendizagem de palavras novas; incentivar a compreensão e a produção de fala, e que o professor deve ter sempre presentes. É por isso importante a definição dos objectivos, dentro das limitações/possibilidades da criança, que visem desenvolver os aspectos linguísticos, nomeadamente no domínio da fala, da leitura e da escrita, incentivar a descoberta do mundo e contribuir para o seu desenvolvimento cognitivo.


Considerando o desenvolvimento como o conjunto das mudanças que ocorrem na organização do pensamento e que resultam da aquisição de novos conhecimentos cabe ao professor fornecer à criança conceitos e teorias que lhe possibilitem a formação de um conjunto de conhecimentos estruturados, que, por sua vez, quando confrontado com um problema, viabilizem a construção de uma representação que o conduzirá à sua resolução. Desta forma a intervenção deve centrar-se na aquisição de conhecimentos, isto é, nas áreas escolares pois é neste contexto que se devem procurar as formas de optimizar o processo de ensino / aprendizagem, no caso de se tratar de crianças com dificuldades de aprendizagem e de desenvolvimento.


Uma vez detectada a necessidade de se incidir nas áreas específicas para promover uma determinada aquisição, por parte dos alunos com dificuldades de aprendizagem, a planificação das actividades e das estratégias passa a ser uma das preocupações fundamentais neste domínio. A melhor forma de viabilizar este tipo de ensino é através da instrução directa. Esta refere-se ao modo de ensino em que o professor promove uma nova aprendizagem através da apresentação do conteúdo e em que é permitido ao aluno testar a sua capacidade de compreensão e domínio da matéria, mediante uma prática orientada. Esta caracteriza-se por se centrar nos conteúdos académicos que devem ser analisados em pequenas unidades e por apelar a métodos directivos em que o professor assume um papel central.


De acordo com Rosenshine e Stevens (1986:379, cit por Raposo, Bidarra e Festas: 1998: 151) podemos identificar seis fases na instrução directa:


1.      Revisão e avaliação do trabalho do dia anterior (e novo ensino se necessário);


2.      Apresentação de novos conteúdos;


3.      Prática guiada (e avaliação para a compreensão);


4.      Correcção e Feedback (e novo ensino se necessário);


5.      Prática autónoma;


6.      Revisões semanais e mensais.


Cada uma destas fases apresenta por sua vez algumas características que importa referenciar.


            Todas as fases mencionadas devem ser trabalhadas de forma sequencial e gradual, para que as crianças possam atingir com sucesso patamares de desenvolvimento pessoal e social superiores.


Fases de instrução directa na aprendizagem




Fases



Características / procedimentos



Objectivos / avaliação



Revisão e avaliação do trabalho do dia anterior



- Correcção dos trabalhos de casa;


- Ensino das áreas de maior dificuldade;


- Revisão das aprendizagens anteriores;


- Revisão dos pré-requisitos.



- Prática e aprendizagem d matéria dada;


- Detecção e superação de eventuais dificuldades.



 


Apresenta-ção de novos conteúdos


 



- Apresentação dos objectivos da lição;


- Apresentação da estrutura geral da lição;


- Procedimentos, pequenos passos e pequenas unidades;


- Colocação de questões;


- Realce dos pontos principais;


- Fornecimento de exemplos concretos, demonstrações e modelos;


- Avaliação da compreensão dos alunos.



- Definição dos objectivos;


- Avaliação / verificação da aprendizagem.



 


 


Prática guiada



- Realização de perguntas;


- Orientar os alunos no exercício de matérias novas;


- Avaliar a compreensão dos alunos;


- Dar feedback;


- Corrigir os erros;


- Voltar a ensinar sempre que se justifique;


- Dar um grande número de exercícios que os alunos podem realizar com sucesso;



- Treino e pratica das aprendizagens feitas;


- Consolidação de aprendizagens.



Correcção e Feedback



- Corrigir e dar feedback às respostas dos alunos sempre


- Dar ao aluno a possibilidade de treinar a resposta correcta;



- Motivar o aluno;


- Reforçar o ensino.


 



Prática autónoma



- Trabalho individual;


- Trabalho de grupo



- Tornar o aluno capaz de trabalhar de forma independente.



Revisões semanais e mensais



- Rever sistematicamente a matéria;



- Avaliação da compreensão e do domínio que os alunos têm das aprendizagens;


- Avaliar a acção do professor.




 


2 – Materiais e estratégias a utilizar


            Para que as crianças atinjam níveis de desenvolvimento cada vez mais elevados deverão ser motivadas e trabalhadas recorrendo ao uso de materiais e estratégias que se adeqúem às suas características devendo ser diversificadas e adaptadas a cada caso específico.


            Enunciamos de seguida alguns materiais e estratégias possíveis de serem usados com crianças com SXF.


J     Proporcionar áreas com segurança para a aprendizagem e para a brincadeira;


J     Criar um ambiente controlado e pouco confuso, onde o aluno possa aprender, praticar e concentrar-se nas actividades propostas;


J     Possibilitar ao aluno um ensino de carácter funcional que lhe permita usufruir de uma melhor qualidade de vida, assim como criar condições para uma melhor integração na vida activa;


J     Definir dentro do ambiente do aluno diferentes áreas de realização de actividades;


J     Arrumar os materiais e objectos em locais próprios, desenvolvendo a orientação e a consistência ambiental;


J     Utilizar materiais / objectos de diferentes texturas, tamanhos, formas, pesos, etc.;


J     Aplicar objectos da vida diária;


J     Usar o “little room” ou pequenos ginásios onde o aluno possa desenvolver as suas capacidades e habilidades;


J     Aplicar materiais/objectos surpresa durante as actividades para auxiliar no desenvolvimento e skills;


J     Empregar materiais que activem e desenvolvam os sentidos: vestibular, auditivo, olfactivo, táctil e gustativo do aluno (como o uso de objectos produtores de vibrações, ressonâncias, ritmos, pesos e temperaturas para desenvolver estes sistemas sensoriais);


J     Aproveitar materiais / equipamentos gímnicos e psicomotores que permitam o trabalho de habilidades motoras, como: puxar, apanhar, largar objectos;


J     Aplicar pistas sonoras, visuais e tácteis que permitam encontrar objectos ou explicação para algumas situações;


J     Usar texturas secas, húmidas e molhadas;


J     Realizar actividades de estimulação sensorial em ambientes controlados e mudá-los gradualmente para ambientes naturais;


J     Organizar actividades rotineiras a fim de proporcionar experiências sensoriais e encorajar a sua utilização em situações específicas;


J     Ter em conta os posicionamentos da criança (recorrer à ajuda de um terapeuta ocupacional ou fisioterapeuta se necessário);


J     Tomar atenção às formas de resposta do aluno (como: movimentos corporais, expressões, posturas, respirações, etc.);


J     Deixar o aluno explorar objectos, alimentos e pessoas;


J     Utilizar as rotinas diárias significativas para a criança como momento de aprendizagem;


J     Dar informação oral por trás da criança, de forma a facilitar uma melhor percepção auditiva;


J     Ensinar/estimular o uso das mãos como ferramentas de exploração e experimentação;


J     Permitir que os objectos estejam ao alcance do aluno;


J     Efectuar a estimulação sensorial de forma cuidada, sistemática e gradual (para não criar confusão ao aluno);


J     Explorar objectos / materiais em conjunto com o aluno (mostrar como se segura, utiliza e explora os objectos);


J     Utilizar a informática e as TIC como instrumentos para desenvolver a aprendizagem do aluno;


J     Experimentar diferentes ambientes de trabalho (exteriores e interiores);


J     Utilizar o trabalho individual e de grupo;


J     Ensinar / estimular a criança a aproximar-se e a tocar nos outros.

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