III – INTERVENÇÃO PEDAGÓGICA
1 – O professor – que papel?
Trabalhar com crianças deficientes, exige um trabalho mais específico nas áreas sociais, psicossociais, sensoriais, de autonomia e independência pessoal contudo a vertente cognitiva não pode ser descurada.
A intervenção educativa dentro da sala de aula parte, inicialmente, da consciencialização, por parte do professor, de que a criança tem limitações e da descoberta das causas das mesmas. Aspectos como o relacional contribuem para, através de uma atitude empática, levar a criança a sentir-se reconfortada, amparada, segura e suplantar as dificuldades que manifesta. Em casos mais graves, a intervenção educativa passa pelo incentivo do uso da linguagem e pela consciencialização no outro, de que a comunicação é um acto que coexiste em contexto de interacção social. A fala surge, assim, espontaneamente como um meio de troca de experiências.
O professor deverá planificar uma intervenção centrada nos domínios da aprendizagem, ou seja, no ensino directo das áreas em que a criança apresenta dificuldades, quer se trate da leitura, da matemática ou de qualquer outra área, sem nunca perder de vista as suas capacidades e interesses.
Neste contexto é importante considerar os objectivos que assistem ao desenvolvimento da linguagem: encorajar o uso da fala para se expressar; cria condições de aprendizagem de palavras novas; incentivar a compreensão e a produção de fala, e que o professor deve ter sempre presentes. É por isso importante a definição dos objectivos, dentro das limitações/possibilidades da criança, que visem desenvolver os aspectos linguísticos, nomeadamente no domínio da fala, da leitura e da escrita, incentivar a descoberta do mundo e contribuir para o seu desenvolvimento cognitivo.
Considerando o desenvolvimento como o conjunto das mudanças que ocorrem na organização do pensamento e que resultam da aquisição de novos conhecimentos cabe ao professor fornecer à criança conceitos e teorias que lhe possibilitem a formação de um conjunto de conhecimentos estruturados, que, por sua vez, quando confrontado com um problema, viabilizem a construção de uma representação que o conduzirá à sua resolução. Desta forma a intervenção deve centrar-se na aquisição de conhecimentos, isto é, nas áreas escolares pois é neste contexto que se devem procurar as formas de optimizar o processo de ensino / aprendizagem, no caso de se tratar de crianças com dificuldades de aprendizagem e de desenvolvimento.
Uma vez detectada a necessidade de se incidir nas áreas específicas para promover uma determinada aquisição, por parte dos alunos com dificuldades de aprendizagem, a planificação das actividades e das estratégias passa a ser uma das preocupações fundamentais neste domínio. A melhor forma de viabilizar este tipo de ensino é através da instrução directa. Esta refere-se ao modo de ensino em que o professor promove uma nova aprendizagem através da apresentação do conteúdo e em que é permitido ao aluno testar a sua capacidade de compreensão e domínio da matéria, mediante uma prática orientada. Esta caracteriza-se por se centrar nos conteúdos académicos que devem ser analisados em pequenas unidades e por apelar a métodos directivos em que o professor assume um papel central.
De acordo com Rosenshine e Stevens (1986:379, cit por Raposo, Bidarra e Festas: 1998: 151) podemos identificar seis fases na instrução directa:
1. Revisão e avaliação do trabalho do dia anterior (e novo ensino se necessário);
2. Apresentação de novos conteúdos;
3. Prática guiada (e avaliação para a compreensão);
4. Correcção e Feedback (e novo ensino se necessário);
5. Prática autónoma;
6. Revisões semanais e mensais.
Cada uma destas fases apresenta por sua vez algumas características que importa referenciar.
Todas as fases mencionadas devem ser trabalhadas de forma sequencial e gradual, para que as crianças possam atingir com sucesso patamares de desenvolvimento pessoal e social superiores.
Fases de instrução directa na aprendizagem
Fases |
Características / procedimentos |
Objectivos / avaliação |
Revisão e avaliação do trabalho do dia anterior |
- Correcção dos trabalhos de casa; - Ensino das áreas de maior dificuldade; - Revisão das aprendizagens anteriores; - Revisão dos pré-requisitos. |
- Prática e aprendizagem d matéria dada; - Detecção e superação de eventuais dificuldades. |
Apresenta-ção de novos conteúdos |
- Apresentação dos objectivos da lição; - Apresentação da estrutura geral da lição; - Procedimentos, pequenos passos e pequenas unidades; - Colocação de questões; - Realce dos pontos principais; - Fornecimento de exemplos concretos, demonstrações e modelos; - Avaliação da compreensão dos alunos. |
- Definição dos objectivos; - Avaliação / verificação da aprendizagem. |
Prática guiada |
- Realização de perguntas; - Orientar os alunos no exercício de matérias novas; - Avaliar a compreensão dos alunos; - Dar feedback; - Corrigir os erros; - Voltar a ensinar sempre que se justifique; - Dar um grande número de exercícios que os alunos podem realizar com sucesso; |
- Treino e pratica das aprendizagens feitas; - Consolidação de aprendizagens. |
Correcção e Feedback |
- Corrigir e dar feedback às respostas dos alunos sempre - Dar ao aluno a possibilidade de treinar a resposta correcta; |
- Motivar o aluno; - Reforçar o ensino. |
Prática autónoma |
- Trabalho individual; - Trabalho de grupo |
- Tornar o aluno capaz de trabalhar de forma independente. |
Revisões semanais e mensais |
- Rever sistematicamente a matéria; |
- Avaliação da compreensão e do domínio que os alunos têm das aprendizagens; - Avaliar a acção do professor. |
2 – Materiais e estratégias a utilizar
Para que as crianças atinjam níveis de desenvolvimento cada vez mais elevados deverão ser motivadas e trabalhadas recorrendo ao uso de materiais e estratégias que se adeqúem às suas características devendo ser diversificadas e adaptadas a cada caso específico.
Enunciamos de seguida alguns materiais e estratégias possíveis de serem usados com crianças com SXF.
J Proporcionar áreas com segurança para a aprendizagem e para a brincadeira;
J Criar um ambiente controlado e pouco confuso, onde o aluno possa aprender, praticar e concentrar-se nas actividades propostas;
J Possibilitar ao aluno um ensino de carácter funcional que lhe permita usufruir de uma melhor qualidade de vida, assim como criar condições para uma melhor integração na vida activa;
J Definir dentro do ambiente do aluno diferentes áreas de realização de actividades;
J Arrumar os materiais e objectos em locais próprios, desenvolvendo a orientação e a consistência ambiental;
J Utilizar materiais / objectos de diferentes texturas, tamanhos, formas, pesos, etc.;
J Aplicar objectos da vida diária;
J Usar o “little room” ou pequenos ginásios onde o aluno possa desenvolver as suas capacidades e habilidades;
J Aplicar materiais/objectos surpresa durante as actividades para auxiliar no desenvolvimento e skills;
J Empregar materiais que activem e desenvolvam os sentidos: vestibular, auditivo, olfactivo, táctil e gustativo do aluno (como o uso de objectos produtores de vibrações, ressonâncias, ritmos, pesos e temperaturas para desenvolver estes sistemas sensoriais);
J Aproveitar materiais / equipamentos gímnicos e psicomotores que permitam o trabalho de habilidades motoras, como: puxar, apanhar, largar objectos;
J Aplicar pistas sonoras, visuais e tácteis que permitam encontrar objectos ou explicação para algumas situações;
J Usar texturas secas, húmidas e molhadas;
J Realizar actividades de estimulação sensorial em ambientes controlados e mudá-los gradualmente para ambientes naturais;
J Organizar actividades rotineiras a fim de proporcionar experiências sensoriais e encorajar a sua utilização em situações específicas;
J Ter em conta os posicionamentos da criança (recorrer à ajuda de um terapeuta ocupacional ou fisioterapeuta se necessário);
J Tomar atenção às formas de resposta do aluno (como: movimentos corporais, expressões, posturas, respirações, etc.);
J Deixar o aluno explorar objectos, alimentos e pessoas;
J Utilizar as rotinas diárias significativas para a criança como momento de aprendizagem;
J Dar informação oral por trás da criança, de forma a facilitar uma melhor percepção auditiva;
J Ensinar/estimular o uso das mãos como ferramentas de exploração e experimentação;
J Permitir que os objectos estejam ao alcance do aluno;
J Efectuar a estimulação sensorial de forma cuidada, sistemática e gradual (para não criar confusão ao aluno);
J Explorar objectos / materiais em conjunto com o aluno (mostrar como se segura, utiliza e explora os objectos);
J Utilizar a informática e as TIC como instrumentos para desenvolver a aprendizagem do aluno;
J Experimentar diferentes ambientes de trabalho (exteriores e interiores);
J Utilizar o trabalho individual e de grupo;
J Ensinar / estimular a criança a aproximar-se e a tocar nos outros.
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